Governo brasileiro decide expulsar suposto espião russo Sergey Cherkasov, preso em Brasília desde 2022.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil determinou a expulsão de Sergey Vladimirovich Cherkasov, apontado como um suposto espião russo com mais de 15 anos de residência no país. Cherkasov está detido em Brasília desde 2022.
A decisão, assinada pela coordenadora de processos migratórios, Alessandra Teixeira de Araúju, foi publicada no Diário Oficial da União na última segunda-feira, 6. O documento oficializa a expulsão com base no artigo 54 da Lei de Migração (13.445/2017).
Sergey Cherkasov terá que cumprir sua pena em território brasileiro e, após a saída do país, ficará proibido de retornar ao Brasil pelos próximos 30 anos. A medida visa impedir futuras atividades de inteligência estrangeira no território nacional.
Cherkasov é acusado de integrar uma rede de espionagem russa que utilizava o Brasil como ponto estratégico para infiltrar-se em outros países, incluindo os Estados Unidos, com o objetivo de obter informações de relevância para a Rússia. Ele nega veementemente todas as acusações.
A Construção de uma Identidade Falsa
As investigações apontam que o russo vive no Brasil desde, pelo menos, 2010, período em que teria adotado a identidade de Victor Muller Ferreira. O objetivo por trás dessa farsa seria obter a cidadania portuguesa e, consequentemente, tornar-se um cidadão europeu, facilitando seus movimentos e acesso a informações.
O suposto espião foi capturado há aproximadamente quatro anos, em março de 2022, após tentar ingressar na Holanda portando um passaporte brasileiro e outros documentos falsificados. Ele havia sido aprovado para um estágio no Tribunal Penal Internacional, em Haia, mas a fraude foi descoberta por autoridades holandesas e americanas.
Após ser deportado para o Brasil, Cherkasov foi detido no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Dois meses depois, iniciou o cumprimento de uma pena de 15 anos e passou a responder a processos por supostos atos de espionagem, lavagem de dinheiro, corrupção passiva e uso de documento falso, segundo informações divulgadas pelo Ministério da Justiça.
Extradição Negada e Pendências Judiciais
Sergey Cherkasov havia solicitado à Justiça brasileira sua extradição para a Rússia. O governo russo alegava que o indivíduo fazia parte de uma rede internacional de tráfico de drogas e pedia seu retorno para julgamento em seu país de origem.
Na época, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a extradição, mas impôs a condição de que o inquérito da Polícia Federal em São Paulo fosse concluído. Contudo, em dezembro de 2024, o ministro Edson Fachin negou o pedido de extradição, justificando que Cherkasov ainda possuía “pendências penais” no Brasil.
O Roteiro Detalhado do Disfarce
Conforme reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo em 2023, Sergey Cherkasov construiu meticulosamente o personagem Victor Muller Ferreira. Um documento de quatro páginas, encontrado durante as investigações da Polícia Federal, detalhava o roteiro que o russo deveria seguir para dar credibilidade à história fictícia criada para sustentar seu disfarce.
Entre as mentiras elaboradas, constava a alegação de que sua mãe teria falecido durante o parto e uma suposta descendência alemã, que serviria para justificar seu sotaque, apesar de afirmar ser natural de Niterói, no Rio de Janeiro. Ele dizia ter sido criado por uma amiga da mãe e que a vida o levou a morar em diversas cidades, incluindo Brasília.
O registro oficial de sua entrada no Brasil data de 2010. Na narrativa criada pelo russo, ele teria passado alguns anos na Europa e retornado ao Brasil naquele ano para resolver questões relacionadas ao seu pai, que residia na capital federal. Essa trajetória fictícia visava justificar sua presença e atividades no país.
Atividades de Espionagem e Descoberta do Esconderijo
Durante sua estadia no Brasil, Sergey Cherkasov utilizou suas identidades falsas para estudar na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. De lá, ele teria tentado obter estágios em agências governamentais e organismos internacionais, de acordo com informações do FBI.
No entanto, ele acabou sendo descoberto por autoridades americanas e holandesas ao chegar na Europa para realizar um estágio no Tribunal Penal Internacional, em Haia. A descoberta de suas atividades de espionagem foi o ponto crucial para sua detenção.
Investigadores descobriram que o russo mantinha um esconderijo em Cotia, na Grande São Paulo, destinado ao armazenamento de equipamentos e mensagens. O local servia como um ponto de apoio para o esquema de espionagem, permitindo que informações e dados fossem recuperados por outros membros da organização.
O esconderijo foi localizado a partir de dados extraídos do celular que Cherkasov utilizava no momento de sua prisão em Guarulhos. A Polícia Federal encontrou diversos dispositivos no local e os repassou ao FBI, o Departamento Federal de Investigação dos Estados Unidos, que auxiliou nas investigações.
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