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Acordo EUA-Irã: Paz Duradoura Incerta, Mas Vitória Estratégica para Teerã com Liberação de Fundos e Legitimidade Internacional

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O acordo entre Estados Unidos e Irã, anunciado como um passo para a paz no Oriente Médio, está longe de garantir estabilidade duradoura na região. Especialistas indicam que os termos negociados, ainda em fase de definição, já representam uma significativa vitória estratégica para o regime iraniano. O Irã, após sofrer ataques, parece ter conseguido concessões importantes da maior potência militar do mundo, saindo em uma posição mais forte do que antes do conflito.

A articulação para viabilizar essa negociação envolve países que, há cerca de um ano, consideravam a revolução iraniana de 1979 um evento ultrapassado. Agora, esses mesmos atores participam de esforços para concretizar o acordo, expandindo a legitimidade do Irã para além do Oriente Médio, segundo o professor Michel Gherman, coordenador do Núcleo de Estudos Judaicos da UFRJ.

Em contraste com a declaração de vitória do presidente americano Donald Trump, o acordo, um memorando de entendimento com validade de 60 dias, não alcançou os objetivos primários que motivaram a guerra iniciada em fevereiro junto com Israel. Trump prometeu “aniquilar” as capacidades militares iranianas, mas precisou do acordo para reverter o bloqueio iraniano no Estreito de Ormuz.

O presidente americano também falou em derrubar o governo iraniano, mas acabou conferindo legitimidade ao sentar para negociar. Além disso, a questão das ambições nucleares de Teerã, embora negadas por este, foi adiada para futuras tratativas, sem uma resolução definitiva.

Irã pode ter acesso a bilhões em fundos desbloqueados

Embora os detalhes completos do acordo ainda não tenham sido divulgados oficialmente, as informações preliminares sugerem um cenário favorável para Teerã. A reabertura do Estreito de Ormuz, celebrada como uma vitória pelos EUA, surgiu como consequência direta da guerra, uma vez que o Irã só bloqueou a via marítima em resposta aos ataques israelense-americanos.

Em contrapartida, o regime iraniano parece estar prestes a obter o desbloqueio de bilhões de dólares em ativos financeiros que estavam retidos no exterior. Além do alívio financeiro, o Irã busca o reconhecimento dos termos pelo Conselho de Segurança da ONU, algo que não foi possível com o acordo nuclear de 2015, firmado durante o governo de Barack Obama.

Críticas de analistas americanos ao acordo

A condução das negociações nucleares gerou críticas por parte de analistas dos Estados Unidos. Daniel Shapiro, ex-embaixador americano em Israel e pesquisador do Atlantic Council, expressou em uma rede social que Trump parecia almejar um acordo superior ao de Obama, mas que os EUA ainda estavam distantes desse objetivo.

Shapiro ressaltou que um acordo pode nunca ser alcançado, ou, se for, pode ser pior do que o que poderia ter sido obtido pela diplomacia antes da guerra. Ele também apontou que o memorando atual não se configura como um acordo nuclear e que Washington estaria, na prática, “pagando” pela reabertura de Ormuz.

Cessar-fogo se estende ao Líbano, mas com desafios na implementação

Para além das negociações diretas entre EUA e Irã, os termos do acordo também envolvem outros atores. Autoridades dos dois países e do Paquistão, que atua como mediador, confirmaram que o cessar-fogo abrange o Líbano, onde o movimento Hezbollah é alvo de ataques diários de Israel. Apesar de novos ataques terem sido registrados, a intensidade foi menor.

Clionadh Raleigh, CEO da organização de pesquisa ACLED, destacou em um podcast que a inclusão de países terceiros no acordo pode dificultar sua implementação. Ela questionou a eficácia de um acordo cujos termos envolvem o comportamento de Estados do Golfo, Israel e outras nações banhadas pelo estreito, sem que estes tenham sido formalmente incluídos no processo de negociação.

Paz duradoura é improvável, mas conflitos de alta intensidade podem ser evitados

Gherman mostra-se pessimista quanto a avanços significativos nas questões centrais durante o período de 60 dias estabelecido pelo memorando. No entanto, ele aponta que o alívio imediato na economia mundial, proporcionado pela desescalada, pode inibir a retomada de conflitos de alta intensidade na região.

“Se por um lado eu estou pessimista que este seja efetivamente um acordo de paz, é impossível que as guerras voltem nas condições que estavam”, afirmou o professor. Ele vislumbra um cenário provável de disputas regionais entre Israel e Irã, com maior escrutínio sobre os impactos na economia persa. Gherman também ponderou a possibilidade paradoxal de os EUA apoiarem o regime iraniano caso Israel o ameace militarmente.

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