Ana, en passant: Poesia e Múltiplas Técnicas de Animação na Abertura do Festival de Brasília
O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro abre hoje sua mostra competitiva com Ana, en passant, um filme descrito pela diretora Fernanda Salgado como um trabalho híbrido de “tantas formas”. A obra promete uma experiência visual rica, abraçando a linguagem da animação com uma diversidade de técnicas que incluem stop-motion, rotoscopia e colagens, explorando as complexidades do luto e da busca por identidade.
A trama acompanha Ana, uma jovem franco-brasileira que, após a morte de sua avó, embarca em uma jornada de autoconhecimento que a leva a Belo Horizonte. Nesse percurso, ela encontra Alice, uma dançarina brasileira que também está passando por intensas transformações em sua vida. O filme se propõe a ser narrativo, ficcional e dramático, mas também se insere na categoria “art house”, com uma forte carga poética.
A poesia do filme, segundo Fernanda Salgado, emerge do diálogo entre as diversas técnicas de animação empregadas. A diretora, que tem um histórico em curtas de ficção em live-action, buscou parcerias com a diretora de animação Camila Kater e a diretora de arte Marcella Tamayo para concretizar as “propostas malucas” exigidas pela animação. A produção é uma coprodução entre Brasil, Portugal e França, impulsionada entre 2018 e 2022.
A estética de Ana, en passant é marcada por “pequenas inquietações visuais”, criadas a partir de texturas e materiais diversificados, que refletem o trajeto de luto da protagonista. A diretora ressalta que o filme é uma história sobre duas mulheres negras buscando entender quem são em um mundo nem sempre acolhedor. “Quisemos bagunçar um pouco a realidade e o universo desse mundo, visualmente”, afirma Salgado, destacando que a textura visual se conecta com as inquietações internas das personagens, tanto estética quanto sonoramente.
Uma Jornada de Identidade e Ancestralidade
Ana é apresentada como uma jovem com origens em Belo Horizonte, mas que sempre viveu em Paris. A morte da avó e as pistas deixadas por ela a trazem ao Brasil em busca de suas raízes. Alice, por sua vez, é uma jovem brasileira que enfrenta desafios como uma gravidez de risco, necessitando de repouso e autoconhecimento. A jornada das duas personagens é ambientada em Belo Horizonte, explorando suas transformações.
O tom predominante do filme é poético, presente nas imagens, nos tempos, nos sons e nos diálogos. A trilha sonora, composta pelo Metá Metá, incorpora “sobreposições de texturas musicais e de vários ruídos”, com influências de matriz africana, afro-brasileira e jazz. O filme busca memórias, raízes e futuro, operando em um espaço-tempo circular e espiralado, refletindo a experiência negra de retomada do passado para compreender o presente e projetar o futuro.
Técnicas de Animação em Destaque
A rotoscopia é a técnica dominante em Ana, en passant, onde cenas filmadas com atrizes foram desenhadas por cima. O 2D aparece em momentos pontuais, como em cenas de chuva ou choro. O stop-motion é utilizado com materiais alternativos, e a animação termossensível, com papel de notas fiscais, é explorada em partes específicas, utilizando calor para gerar imagens e cores, em uma abordagem experimental e analógica.
Fernanda Salgado destaca a importância de filmes com temáticas negras e afro-brasileiras ganharem visibilidade, especialmente em festivais importantes como o de Brasília. Ela relembra que, em 2018, quando iniciaram o desenvolvimento do filme, havia pouquíssimos filmes dirigidos por mulheres negras com distribuição comercial no Brasil, especialmente no campo da animação. A presença de Zezé Motta no elenco é um dos destaques, trazendo “toda sua beleza, potência e profundidade” para uma personagem central.
Expectativas e Referências Cinematográficas
A diretora expressa o desejo de que Ana, en passant abra portas e amplie as possibilidades do cinema, especialmente para narrativas que focam nos modos de vida negros, suas alegrias, prazeres e imaginação. Ela espera que o filme dialogue com o cinema de animação contemporâneo e com o cinema negro internacional e brasileiro, citando como referências obras como “A dupla vida de Veronique” de Kieslowski e “Waking Life” de Richard Linklater, além de filmes brasileiros como “A cidade onde envelheço” de Marília Rocha e “Olmo e a gaivota” de Petra Costa.
O elenco conta ainda com a estreante Jhéssica Pierina e Carlos Francisco, que interpreta um carteiro com uma “delicadeza” e “gentileza” que trouxeram calma à figura central para as personagens. A equipe do filme é majoritariamente composta por mulheres negras, reforçando a perspectiva e a visão de mundo que o projeto busca apresentar na tela.
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