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Médium Acusada de Fraudar Cartas Psicografadas: Famílias Relatam Coleta de Dados na Internet e Engano Devastador

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Médium Maira Rocha é alvo de denúncias de fraude em cartas psicografadas com dados coletados da internet, causando dor e revolta em famílias enlutadas.

Famílias que buscaram consolo em cartas psicografadas atribuídas à médium Maira Rocha, em Brasília, relatam profunda decepção e acusam a profissional de usar informações coletadas na internet para forjar mensagens de entes queridos falecidos. A investigação, que durou mais de dois meses, ouviu pesquisadores, representantes de entidades espíritas e as próprias famílias afetadas, reconstruindo a trajetória da médium.

As denúncias vão além da suposta fraude nas cartas, incluindo acusações de ameaças, charlatanismo e estelionato. Maira Rocha, procurada pela reportagem, não concedeu entrevista. A situação expõe a vulnerabilidade de pessoas em luto e levanta questões sobre a ética e a veracidade de práticas mediúnicas quando exploram a dor alheia.

Conforme divulgado em reportagem, a prática de coletar dados de pessoas falecidas e seus familiares através de informações disponíveis online, como redes sociais e notícias, tem sido o cerne das acusações. Especialistas alertam que essa conduta, conhecida como ‘estelionato espiritual’, desvirtua o propósito do espiritismo e causa danos psicológicos severos aos enlutados.

O Luto como Porta de Entrada para a Suposta Fraude

A perda de entes queridos, como a do marido Thiago para a empresária Marina Escames, e do filho Henrique para a comerciante Marcela Magalhães, gera um sofrimento profundo que leva muitas famílias a buscarem conforto na espiritualidade. A crença na psicografia, para muitos espíritas, oferece uma ponte para a comunicação com os que partiram.

Marina Escames, espírita kardecista, buscava uma mensagem do marido Thiago para aliviar sua dor e a do filho caçula, Matteo. Diva Mascarenhas Borges também procurou Maira Rocha, buscando uma mensagem de seu pai. Ambas foram apresentadas à médium como uma figura capaz de trazer alívio e esperança.

A médium Maira Rocha, que também é advogada e trabalha no Ministério da Saúde, fundou o centro espírita Casa da Caridade Inácio Daniel. A instituição, que atende milhares de pessoas mensalmente, recebe doações e oferece auxílio a necessitados. Parte das atividades é voltada para atendimentos espirituais, incluindo o trabalho de cartas psicografadas, com doações sendo solicitadas como agradecimento.

Inconsistências nas Mensagens Geram Desconfiança

As inconsistências nas cartas psicografadas começaram a surgir, levantando sérias dúvidas sobre a autenticidade das mensagens. Marcela Magalhães relatou ter recebido duas mensagens de seu filho Henrique, falecido em um acidente de carro. Em uma delas, Maira Rocha descreveu Henrique como um jogador de futebol, informação que se mostrou incorreta.

A descoberta da origem da informação incorreta veio quando Marcela identificou uma foto de Henrique em uniforme esportivo, associada a uma reportagem sobre o acidente. A própria reportagem original continha o equívoco. Outra mensagem citava amigos de Henrique que não estavam no acidente, mas apareciam em uma montagem de campanha de alimentos feita por Marcela nas redes sociais.

O ex-voluntário Antônio Carlos Felizola também expressou desconfiança, após receber reclamações de pessoas que questionavam a veracidade das cartas. Segundo ele, Maira Rocha teria tido discussões com o marido sobre a suposta farsa de seu trabalho.

Métodos de Arrecadação e Críticas de Instituições Espíritas

A Casa da Caridade Inácio Daniel, segundo a reportagem, promovia diversas formas de arrecadação, incluindo a venda de tijolos com nomes de pessoas falecidas e leilões de objetos usados pela médium em suas sessões. Maira Rocha justificava a necessidade de recursos materiais para o funcionamento do centro, alegando que a mediunidade não poderia se afastar do campo material.

No entanto, práticas como leilões são rejeitadas por instituições oficiais do espiritismo. Jorge Godinho, presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB), critica o modelo, afirmando que a doutrina ensina a servir de forma desinteressada e não autoriza tais práticas.

A história de origem da mediunidade de Maira Rocha, que ela diz ter surgido na infância no Ceará, também foi questionada por sua prima, Márcia Rocha, que afirmou ser novidade para a família e que, em uma cidade pequena, tal dom não passaria despercebido. O apelido “Lê”, segundo Márcia, tem origem no nome Alexandrina, e não de um espírito que a ensinou a ler.

Protocolos Burocráticos e o Legado de Chico Xavier

O centro de Maira Rocha exigia um rigoroso protocolo burocrático antes das sessões de psicografia, como a inscrição prévia com nome completo e CPF do consulente e acompanhante, além de comprovante de hospedagem ou passagem. Esse modelo contrasta com a atuação de Chico Xavier, que, segundo Jorge Godinho, atendia multidões sem solicitar dados pessoais, pois a comunicação com os espíritos era uma orientação divina.

Marina Escames relatou ter presenciado um ritual chamado “fila do abraço” antes da sessão psicográfica, onde Maira Rocha coletava informações de forma direta. Matteo, filho de Marina, entregou uma carta pessoal à médium com um pedido para que ela a entregasse ao pai. Dias depois, Maira citou em uma palestra uma frase incomum dita pelo marido de Marina, “te amo pra cacete”, que Marina reconheceu de uma mensagem antiga de aniversário do marido.

A carta psicografada continha detalhes íntimos, como a tatuagem de âncora com o nome de Marina e a menção a chás de camomila durante internação. Marina descobriu que esses detalhes estavam em um vídeo publicado por ela na internet. O filho Nicolas percebeu a semelhança com o conteúdo do perfil do pai nas redes sociais, confirmando que as informações estavam disponíveis online.

Impactos Devastadores e Denúncias Formais

A descoberta da fraude foi devastadora para Marina e seu filho Matteo, que entrou em depressão. Sete lideranças espíritas assinaram um manifesto e apresentaram uma notícia-crime contra Maira Rocha por estelionato, charlatanismo e crime contra o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O advogado criminalista Luiz Henrique Machado explica que o “estelionato espiritual” ocorre quando a fé é instrumentalizada para enganar pessoas com informações falsas obtidas online.

Diva Mascarenhas Borges também encontrou erros na carta de seu pai, como a menção a uma tia falecida antes dele e a utilização de nomes de registro antigos de seus irmãos adotivos, informações que estavam disponíveis no inventário e em um blog local. Ela procurou a Federação Espírita do Distrito Federal e descobriu outras denúncias semelhantes.

Silvano, outro denunciante, considerou a carta de sua mãe uma fraude por esquecer um neto e incluir uma pessoa que não era neta. Ele registrou boletim de ocorrência por charlatanismo e ameaça. Há registros policiais contra Maira Rocha em pelo menos cinco estados, além de acusações de apropriação indébita e desvio de recursos analisadas pelo Ministério Público.

A Importância da Cautela e da Pesquisa Científica

Muitas vítimas desistem de denunciar por medo de ameaças. Maira Rocha, em uma declaração, deixou claro que não tolera questionamentos, alertando que quem a acusar de obter informações da internet poderá enfrentar processos civis. O psicólogo Everton Maraldi alerta que ser enganado em um momento de luto pode ser desastroso, levando a questionamentos de crenças e prejudicando a saúde mental.

Pesquisas científicas sobre cartas psicografadas buscam explicar a atividade mediúnica séria. O NUPES da Universidade Federal de Juiz de Fora, liderado pelo psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, realiza estudos com médiuns voluntários e pessoas enlutadas que não têm contato prévio, encontrando evidências de que alguns médiuns obtêm informações precisas sobre falecidos sem meios convencionais.

Jorge Hessen, pesquisador do Espiritismo, define a prática como “estelionato por luto”, um crime que prejudica o sentimento de perda. Pedro Camilo, pesquisador de fraudes em cartas psicografadas, reforça que Allan Kardec, em “O Livro dos Médiuns”, orienta a denúncia de médiuns fraudulentos para proteger os sérios e evitar enganos.

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